
“O que houve foi a normalização de um discurso claramente fascista, que deveria, ao contrário, ter sido desde o início marcado como inaceitável”.
Luis Felipe Miguel
“A ideologia é mais perigosa quando mente com a verdade”.
Slavoj Zizek
Em 2021, fui autor do verbete “Antibolsonarismo” do Dicionário dos Antis. A obra foi organizada em Portugal, onde foi publicada pela Imprensa Nacional, e teve sua versão brasileira publicada pela Editora Pontes, recebendo o subtítulo de A cultura brasileira em negativo, com a qual colaborei e resenhei para ZH (disponível aqui ). A ideia original de seu organizador, José Eduardo Franco, era organizar uma obra coletiva que, em vez de focar nas visões afirmativas e nos discursos oficiais de identidade nacional, analisasse a formação social e histórica do Brasil e de Portugal pelo prisma dos contrários, das oposições e da negação do Outro. Uma obra em que se pode ver como a rejeição, o preconceito, a demonização das diferenças e a criação de estereótipos foram e são forças motoras determinantes na política, na religião e nas práticas sociais de ambos os países. O convite para escrever o verbete me foi feito por Carmela Grune, uma das coordenadoras adjuntas da versão brasileira, um calhamaço de 860 páginas que disseca nossa cultura política pelo prisma dos contrários.
Minha contribuição com o verbete antibolsonarismo era motivada pelo fato de que, à época, o conceito ainda não possuía uma definição tão rigorosa quanto o termo bolsonarismo. Usadas de forma dispersa nas redes sociais por analistas e institutos, caracterizavam a reação ao bolsonarismo por todos aqueles que rejeitavam a retórica de Jair Bolsonaro. Com a vitória de Jair Bolsonaro, o termo caracterizou a oposição ao seu governo, baseada na defesa das instituições republicanas e da ciência. Foi, numa expressão, um sistema de preservação democrática. O Dicionário dos Antis é considerado uma das primeiras produções de grande escala a consolidar o termo como verbete enciclopédico e acadêmico, e o que tentei fazer foi retirar o conceito do universo estritamente jornalístico e inseri-lo na história da cultura política brasileira.
Eu não estava sozinho nessa empreitada: pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/UFES), liderados por Fabio Malini, avançaram e delimitaram o antibolsonarismo digital, demonstrando como o termo abrange uma imensa “bolha” agregadora no ambiente virtual, capaz de rivalizar com o engajamento da extrema-direita. Antropólogos e cientistas sociais, como Isabela Kalil, também mapearam que o bolsonarismo se alimenta de dinâmicas de exclusão, o que força o antibolsonarismo a se estruturar não como uma ideologia homogênea, mas como uma frente ampla e heterogênea cujos membros compartilham apenas o desejo de frear retrocessos civilizatórios.
Releio o que escrevi
Olho, cinco anos depois, para o que escrevi. É um verbete básico se comparado ao que temos hoje em termos de luta social. Ele até precisaria ser atualizado, mas entendo que seus argumentos centrais ainda se mantêm. Começo do básico: ali afirmei que o antibolsonarismo é a reação ao bolsonarismo. Mas hoje eu preciso acrescentar que o bolsonarismo não terminou com Jair Bolsonaro, ao contrário. Depois de ter ocupado o centro da política brasileira durante quatro anos e mantendo-se ativo no governo Lula, ele procura agora sobreviver ao seu próprio fundador, apresentando Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República.
Se antes a questão era compreender como Jair Bolsonaro havia chegado ao poder, hoje é preciso compreender como o bolsonarismo pretende retornar ao poder, mesmo sem Jair Bolsonaro “ungido” pelas urnas, como a extrema direita gosta de dizer. Não se trata apenas de uma sucessão familiar; trata-se da tentativa de transformar uma experiência política de extrema-direita em herança, uma identidade reacionária em projeto e uma linguagem simplista em programa de governo. O bolsonarismo aprendeu, depois de oito anos, que não precisa mais aparecer como novidade para disputar o poder: pode apresentar-se como restauração, como defesa daquilo que seus eleitores entendem ter sido perdido.
Por isso é preciso ser antibolsonarista, de novo. Quando escrevi o verbete, a esquerda precisava entender Jair Bolsonaro. Como justamente ele podia aparecer como uma ruptura com a política tradicional? Recordo-me de um vídeo em que o próprio Jô Soares dizia, em abril de 2016, após a votação do impeachment de Dilma, quando Bolsonaro dedicou seu voto à memória do torturador Brilhante Ustra: “Ninguém pode estar de acordo com a maneira como esse homem age. É realmente muito grave. Ele fez apologia ao crime. É uma pessoa que não merece estar no Congresso Nacional. É uma vergonha”.
Eu afirmava no verbete que o bolsonarismo aparecia como uma ruptura, expressão de uma extrema direita que havia encontrado no antipetismo, no ressentimento e na rejeição das instituições políticas uma maneira de construir uma nova identidade eleitoral. Lembrei, à época, como Esther Solano mostrou que essa “bolsonarização” atropelou a política brasileira, transformando um deputado de pouca expressão nacional em um candidato capaz de mobilizar um eleitorado que já não queria apenas votar contra um partido, mas votar contra aquilo que imaginava ser o próprio sistema político.
O tempo muda o que escrevemos
Olho o que escrevi e me pergunto: o que aconteceu? A situação é outra porque o bolsonarismo já tem história, organização, redes, símbolos, lideranças, linguagem e eleitorado e, por isso, não depende mais exclusivamente de Jair Bolsonaro. Olho para Flávio Bolsonaro e penso que voltamos à mentalidade das Capitanias Hereditárias – modelo que perpetuou na cultura política brasileira a ideia de que a certidão de nascimento importa. Assim como os donatários recebiam as capitanias e, por meio dos Forais, garantiam o direito de transmitir suas terras aos descendentes – estabelecendo o latifúndio como base do sistema econômico e originando o coronelismo e o mandonismo em nosso país -, Flávio Bolsonaro se apresenta como o continuador da obra do pai.
É impossível, nesse modelo, não pensar que o latifúndio agora é o campo de votos que o bolsonarismo arregimentou. Seu programa faz exatamente isso: recupera as pautas antidemocráticas que foram centrais ao bolsonarismo, ao mesmo tempo em que procura apresentá-las dentro de uma linguagem de governo, com propostas econômicas, fiscais, administrativas e de segurança pública. Não é notável essa inversão? Aquilo que antes aparecia como discurso de ruptura agora se apresenta como um programa de Estado que se diz viável – mas não é. É só olhar o plano de governo de Flávio: ele propõe alterações nas relações entre os Poderes e limites às competências do STF, ao mesmo tempo em que defende a redução da máquina pública e mudanças fiscais que atacam diretamente a Constituição – avanços sociais que não podem ser desconsiderados em uma análise séria. Há um notável estudo disponível nas redes sociais criticando seu projeto. Já viu? (confira aqui).
Eu entendo que as próximas eleições são fundamentais porque colocam em risco o projeto democrático brasileiro e, com ele, as chances de construir uma sociedade melhor. Já mostrei que eu também tenho minhas críticas à esquerda em meu livro A Corrosão do PT, mas tenho muito mais críticas ao avanço neoliberal em meus livros O Êxtase da Direita e Neoliberais não merecem lágrimas (disponíveis gratuitamente em jorgebarcellos.pro.br). O que me assusta é essa possibilidade de transição do bolsonarismo como ruptura para o bolsonarismo como normalização. Não, o bolsonarismo não é algo que possa ser normalizado.
É disso que falei aqui semana passada, quando falei dos debates do JN (veja aqui). Se naquele ensaio me chamava a atenção como os debates políticos evoluíram de espaços de apresentação de propostas para espetáculos midiáticos dominados pela lógica do escândalo, o que vemos é emergir uma extrema direita na campanha atual, longe de qualquer defesa de princípios democráticos. Aliás, o problema não está em entrevistar a extrema-direita, cujos candidatos devem participar dos debates e ter suas propostas conhecidas, etc., etc. O problema que tentei apontar foi essa espécie de nivelamento televisivo que cede a projetos que favorecem o mercado e que avançam no autoritarismo sem qualquer crítica pelos jornalistas da bancada. Quando uma candidatura como a de Flávio Bolsonaro aparece como outra qualquer, é aí que reside o perigo. Defendi que o que o bolsonarismo conseguiu foi parecer uma força normal da política, quando não é, exatamente porque tensiona os limites das instituições democráticas.
Minha definição de antibolsonarismo
Sou antibolsonarista, mas não no sentido de estar reagindo a Jair Bolsonaro ou a Flávio Bolsonaro como pessoas. Tenho vizinhos que são bolsonaristas e eles não são ignorantes ou fascistas; sequer são meus inimigos. Ao contrário, tento esclarecê-los, mas não é fácil. É que o bolsonarismo já está impregnado nas consciências – eu diria que… “somos todos bipolares”! Eles têm o direito de disputar eleições? Na minha opinião, depende. Sim, mas só até o momento em que não questionam, em nome da vitória eleitoral, determinados valores universais e constantes em nossa Constituição, como a defesa das instituições democráticas, os direitos conquistados ao longo do tempo pelos trabalhadores em sua luta social, a liberdade de pensamento e o reconhecimento do Outro. Sou antibolsonarista exatamente por isso: recuso-me a aceitar que a política seja compartilhada com aqueles que pretendem destruí-la; recuso-me a aceitar candidaturas que promovam a derrocada de direitos conquistados pelos mais pobres sejam consideradas normais.
Por isso estabeleci naquele verbete definições que ainda valem. A primeira, hoje óbvia, é que o bolsonarismo é de direita e o antibolsonarismo é de esquerda. Mas a esquerda, porta-voz do discurso antibolsonarista, não pode esquecer sua própria responsabilidade na construção das condições que permitiram a ascensão da extrema-direita. A crise econômica, os escândalos de corrupção, o desgaste do PT, a incapacidade de produzir uma resposta convincente à insatisfação social e a demora em compreender a transformação das redes sociais em espaço de disputa política contribuíram para que o bolsonarismo ocupasse um lugar que antes parecia reservado à política tradicional. É o que eu dizia no verbete: a esquerda não pode apresentar-se como vítima inocente da história. O antipetismo não nasceu do nada, e o bolsonarismo soube transformar a rejeição ao PT em rejeição ao sistema político.
Eu já falei disso em outro lugar
Existe uma diferença entre reconhecer os erros da esquerda e aceitar a conclusão de que a democracia é o problema. A esquerda pode e deve fazer autocrítica e estabelecer um novo programa. Foi o que propus em meu livro O futuro da esquerda está no passado (Clube dos Autores). O antibolsonarismo precisa inclusive dessa autocrítica para não se transformar em simples defesa cega de um campo político. O que ele não pode aceitar é que a crítica ao sistema se transforme na destruição das mediações que tornam possível a política. O problema do bolsonarismo não está em criticar instituições, mas quando a crítica deixa de buscar seu aperfeiçoamento e passa a apresentá-las como inimigas da sociedade, visando à sua destruição. Desde Gramsci sabemos que é possível a conquista das instituições por dentro; o que descobrimos agora é que é possível também a sua destruição.
Mantenho a diferença que estabeleci anteriormente: o bolsonarismo é antissistema; o antibolsonarismo defende as instituições. Quando Jair Bolsonaro apareceu em 2018, sua força estava na imagem do homem que vinha de fora do sistema, embora estivesse como deputado há quase trinta anos. Hoje existe uma contradição ainda maior, porque Flávio Bolsonaro é senador, candidato de um partido organizado e membro de uma família que ocupa há décadas um espaço próprio na política brasileira. Mas o que faz é corroer as instituições.
O discurso antissistema, portanto, não pode mais ser compreendido simplesmente como oposição à política tradicional: tornou-se um discurso de oposição às próprias instituições quando estas impedem a realização de suas vontades políticas. É nesse ponto que a proposta de limitar competências do STF precisa ser discutida. Não porque o STF esteja acima de críticas, mas porque a democracia não pode permitir que cada instituição que contraria o projeto de um candidato seja transformada em um obstáculo a ser eliminado.
As nuances do antibolsonarismo
Não sei se estou sendo claro com o que defendi no verbete e que mantenho: entendo que o antibolsonarismo não defende todas as decisões do STF, defende a existência do STF. Não defende todos os partidos, defende a existência de partidos. Não defende toda a imprensa, defende a liberdade de imprensa. Não defende todos os governos, defende a possibilidade de alternância de governos. Essa é a diferença entre defender uma instituição e defender aqueles que momentaneamente a ocupam. O bolsonarismo tende a personalizar a política; o antibolsonarismo a despersonaliza. Precisamos de um Estado forte que defenda políticas públicas para os pobres, e não para os mais ricos, como faz o bolsonarismo. Ele faz isso porque, atrás dele, esconde-se o Capital.
Apontei outras diferenças no verbete que valem a pena relembrar. Ali disse que o bolsonarismo é anti-intelectual, enquanto o antibolsonarismo é iluminista, mostrando – com base em Jean-Pierre Lebrun e Hannah Arendt – o anti-intelectualismo como uma estratégia de conquista das massas. A questão continua atual, mas talvez tenha adquirido uma dimensão ainda maior. O problema não é simplesmente a recusa da ciência, da universidade ou do conhecimento – presente tanto em Jair quanto em Flávio Bolsonaro (que, em debate, chegou a sugerir que a crise climática planetária se resolve com saneamento básico). O problema é a construção de um cenário em que qualquer conhecimento que contradiga a extrema direta, quer dizer, uma identidade política, seja recusado como mentira, manipulação ou perseguição. O dilema contemporâneo não é apenas a existência da fake news, mas a transformação da verdade em identidade: o sujeito não pergunta mais se uma afirmação é verdadeira, mas se ela pertence ao seu campo político, o que é sintetizado pela epígrafe de Zizek.
Antibolsonarismo em tempos psicopolíticos
Já mostrei a importância do pensamento de Byung-Chul Han (disponível aqui): na psicopolítica da extrema direita, não é preciso coagir o sujeito, simplesmente basta produzir as condições para que ele participe voluntariamente da circulação dos discursos que o governam. O sujeito compartilha, comenta, reage, produz imagens, transforma acontecimentos em memes, converte adversários em personagens e participa da construção permanente do espetáculo político. Na minha interpretação, a política deixa de ser somente representação e passa a ser também produção contínua de afetos.
Hoje, com a inteligência artificial, isso se torna ainda mais evidente. O uso de uma imagem de Jair Bolsonaro produzida por IA na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro mostra como a presença política pode sobreviver à própria ausência física. O TSE discutiu exatamente os limites dessa nova forma de propaganda, decidindo por 4 votos a 3 não punir a campanha pelo uso do vídeo, ao mesmo tempo em que fixou critérios sobre o uso de deepfakes nas disputas eleitorais. A questão que se coloca não é apenas tecnológica, é política: quando já não sabemos exatamente onde termina o acontecimento e começa sua fabricação, o que acontece com a nossa faculdade de julgar?
Bolsonarismo nos limites do totalitarismo
No verbete, apontei que, para Hannah Arendt, o sujeito totalitário é aquele para quem a distinção entre fato e ficção, verdadeiro e falso, começa a desaparecer. Não posso afirmar que o Brasil vive um regime totalitário graças às suas instituições, mas dá para perceber que a política contemporânea produz condições semelhantes de enfraquecimento da faculdade de julgar. O espetáculo permanente, a repetição das mesmas imagens, a circulação acelerada das emoções, a transformação de tudo em escândalo e a possibilidade técnica de fabricar discursos produzem um mundo no qual o eleitor pode ser levado a reagir antes mesmo de compreender.
Outra distinção que estabeleci no verbete é que o bolsonarismo carrega traços totalitários, enquanto o antibolsonarismo é democrático. É preciso repetir aqui o cuidado que tive no meu texto anterior: não se trata de afirmar que o bolsonarismo é o novo nazismo ou que Flávio Bolsonaro é um novo Hitler. Essas comparações reducionistas simplificam aquilo que precisamos compreender; elas propõem uma identidade histórica absoluta quando o correto é reconhecer tendências, procedimentos e formas semelhantes de exercício do poder. Sou um comparativista, fazer o quê?
É preciso dar limites ao bolsonarismo
Hoje essa questão aparece também na maneira como se procura reescrever o significado dos acontecimentos políticos recentes. A defesa da anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro, apresentada por Flávio Bolsonaro como pauta de sua candidatura, é problemática. Trata-se de reconhecer que a democracia depende da capacidade de julgar os fatos e de não transformar a realidade em uma narrativa manipulável segundo as conveniências do momento.
O antibolsonarismo é democrático porque não pretende impedir o adversário de existir, mas que dispute a eleição no espaço público diante de instituições, argumentos e eleitores. O adversário político não é um inimigo a ser eliminado, é alguém que precisa ser convencido ou derrotado pelo voto. Conquista-se o voto por meio de argumentos e pela avaliação de projetos de governo. A democracia não existe para garantir que o nosso lado vença, mas para que, quando perdermos, continuemos existindo – e que quem vença, vença por possuir projetos sólidos. Fala sério: há candidatos sugerindo bomba atômica para o país e extermínio nas periferias. Isso pode ser considerado argumento democrático em algum lugar?
O bolsonarismo ou a vida
Estabeleci também no verbete outra diferença importante: afirmei que o bolsonarismo é necropolítico e o antibolsonarismo defende a vida. Isso continua válido. No verbete, recorri a Achille Mbembe para compreender a necropolítica como a capacidade soberana de decidir quem pode viver e quem pode morrer. Hoje a questão reaparece principalmente na política de segurança pública da extrema direita. O programa de Flávio Bolsonaro propõe o endurecimento de penas e o de Renan Santos propõe regime de exceção para favelas e comunidades periféricas. Aqui o problema é identificar quando a política de segurança deixa de proteger a vida e passa a construir determinados sujeitos como vidas descartáveis, permanentemente submetidas à violência do Estado.
A necropolítica não é simplesmente matar: é produzir uma divisão entre aqueles cuja vida merece proteção e aqueles cuja vida pode ser exposta ao risco, à prisão e à morte. O antibolsonarismo recusa a política que transforma o medo em argumento permanente para a ampliação do poder punitivo. O antibolsonarismo defende os direitos humanos e, com isso, o direito à vida. Curiosamente, eu diria que, por isso, o antibolsonarismo não é apenas a defesa da vida biológica, mas a defesa do direito à vida política. A política bolsonarista não mata somente corpos – como a facilitação do porte de armas no governo de Jair Bolsonaro permitiu -, ela mata possibilidades, diferenças e tudo aquilo que na política representa a capacidade de imaginar outro futuro.
Essa transformação não é secundária: a forma pela qual a política aparece pode ser tão importante quanto aquilo que ela diz. Quando a política passa a depender do excesso, da exposição, da provocação, do choque, da frase de efeito e do conflito permanente, ela adquire a lógica de um roteiro e mata a imaginação do futuro. Há personagens, vilões, mocinhos, reviravoltas, acusações, clímax e espectadores. O candidato deixa de ser alguém que apresenta um projeto de futuro e passa a ser um agente que precisa produzir acontecimentos.
Bolsonarismo como pornopolítica
Relendo meu ensaio anterior, não tenho certeza se me fiz compreender bem quando disse que tudo isso se assemelha ao roteiro de um filme pornô. Quando afirmei que a política contemporânea está se tornando pornográfica, evidentemente trata-se de uma metáfora com força de teoria. A política se transforma em um universo pornô não porque apresente corpos nus ou cenas sexuais, mas porque a sua pornografia imita a original, é a perda da distância necessária entre o projeto de um candidato e a ideia de nação – como o pornô é a perda da distância entre o sexo e o erotismo. Como no pornô, os candidatos da extrema direita passam a oferecer tudo para satisfazer o cidadão imediatamente, explicitamente, excessivamente. Não deixa nada para a imaginação, porque precisa mostrar tudo, dizer tudo, exagerar tudo, expor tudo. Ela não trabalha com símbolos que exigem interpretação; trabalha com signos que exigem reação imediata. Não pede reflexão, pede consumo. É uma política do excesso e é justamente por isso que se aproxima do pornô.
Não é necessário apresentar corpos nus para que algo seja pornográfico: basta apresentar candidatos nus. A nudez está nos projetos vazios de conteúdo, na ética ausente que não teme usar fake news para se promover, e isso é nada mais do que a própria nudez do pensamento que se faz livre de mediações, tal como um ator pornô se despede de suas roupas. Mas, para ser candidato, é preciso vestir algo: um projeto de sociedade que dê sentido ao exercício do poder. O que estou fazendo é novamente uma comparação, é um deslocamento da noção de nudez em Giorgio Agamben (em Homo Sacer, a vida nua como aquela reduzida à existência biológica exposta ao poder soberano) para a política moderna, na qual o cidadão fica desprotegido diante do poder. Se tivesse de avançar no meu verbete, diria que há no bolsonarismo uma passagem da política pornô à política nua.
A política nua
Se a vida nua, segundo Agamben, é aquela que perdeu todas as proteções que a constituíam como vida política, a política nua só pode ser aquela que perdeu os elementos que a constituíam como política: projetos, valores, ética, instituições, memória, pensamento, mediações e futuro. Restam o candidato e sua imagem encarnada em uma performance em busca da reação do público. Resta o corpo político exposto ao consumo permanente das redes e da televisão. O candidato nu é aquele que aparece sem projeto, mas com signos; sem ética, mas com lacrações; sem valores, mas com inimigos; sem futuro, mas com espetáculo. Ele precisa apenas aparecer, provocar, escandalizar e ocupar a tela. Talvez seja essa a última transformação que incluiria em meu verbete.
A política que se torna pornográfica não precisa mais esconder sua nudez: ao contrário, faz dela sua mercadoria. Ela se mostra justamente porque não tem mais nada a dizer além de sua própria exposição. É por isso que o antibolsonarismo, hoje, não pode ser apenas uma reação contra uma figura política, mas uma resistência contra a transformação da política em espetáculo, devolvendo densidade ao debate. O discurso ou tem pensamento ou não tem nada; disputa política é sobre projetos, não sobre acusações. Precisamos devolver a ética ao exercício da política para garantir o seu futuro. Se a vida nua fica diretamente exposta ao poder, a política nua fica exposta ao espetáculo – e o eleitor corre o risco de ficar nu também: sem informação, sem reflexão e sem alternativas. Nu de projetos.
Ainda podemos ter esperança?
O bolsonarismo retira sua força da desesperança, enquanto o antibolsonarismo retira a sua força da esperança. Byung-Chul Han escreveu obras recentes sobre o tema. Tanto em O Espírito da Esperança quanto em A Tonalidade do Pensamento, Han enfatiza a diferença entre esperança e otimismo passivo: enquanto a primeira é um movimento ativo de busca consciente da superação das dores do presente, o otimismo ingênuo ignora a negatividade e aceita as coisas como estão. Se as nossas dores vêm da precarização do trabalho, é preciso lutar para regulá-lo e reduzi-lo, como defende a esquerda. Isso é o oposto do que propõe a extrema-direita quando diz que o trabalhador deve ser “livre” para trabalhar quantas horas quiser, omitindo o poder desproporcional dos detentores do capital nessa relação.
Mas Han alerta para os artifícios que fazem com que nossa capacidade de ter esperança diminua. A primeira é que, para Han, as políticas do medo alimentam a desesperança. O medo é usado como instrumento de controle que paralisa a ação. Não são apenas os cenários apocalípticos globais que geram uma “sociedade do medo”, mas também a insegurança no cotidiano local. É com esse medo crônico que a extrema-direita conta, pois ele isola os indivíduos, estimula o egoísmo, destrói a empatia e põe a própria democracia em perigo.
A segunda é a nossa capacidade de narrar. A verdadeira esperança é eloquente e capaz de construir narrativas. Por isso os candidatos apostam na contação de suas histórias pessoais para gerar expectativas. O problema ocorre quando essas narrativas servem à manipulação: não é possível que a narrativa da vida moderada de um herdeiro político de extrema direita seja equiparada à história de luta social de lideranças populares, nem que aqueles que atacam direitos passem a imagem de defensores dos trabalhadores.
Menos felicidade individual, mais coletiva
A terceira é a reelaboração sobre uma estrutura central para todos, a família. Quando ela é transformada em mero signo publicitário, oculta profundas diferenças de classe. Essa reelaboração é central na propaganda capitalista, a que mostra famílias felizes e foi duramente criticada por Eva Ilouz em seu Happycracia: fabricando cidadãos felizes (Ubu Editora). Ela nada mais é do que a mercantilização da “felicidade” criticada pela psicologia positiva – a contrapartida do capitalismo de desempenho. Ao exigir que as pessoas foquem obsessivamente em seu bem-estar individual, a sociedade esvazia a dor coletiva e gera indivíduos isolados. A esperança verdadeira resgata o pensamento comunitário, combate a depressão social e rompe o ciclo do horizonte esgotado. A esperança opera como um salto e como o fermento revolucionário necessário para transformar a realidade.
E por que a esquerda tem isso a oferecer? Porque seu projeto não é abstrato: parte do mundo real. Não é individualista, parte das comunidades reais. Para Han, a esperança é a capacidade de imaginar outra política – o que também é a possibilidade de a democracia ser mais do que a escolha periódica entre personagens. Quando me reconheço antibolsonarista, respondo à pergunta fundamental destas eleições: somos ainda capazes de reconhecer a diferença entre um candidato e um projeto, entre um espetáculo e uma política, entre um signo e um valor, entre a exposição de um corpo e a existência de uma ideia? Não estamos caminhando apenas para a escolha de um candidato. Caminhamos para continuar construindo um país. E é por isso que é preciso ser antibolsonarista, mais uma vez.